Eucaristia, Sacerdócio e Comunhão Eclesial

 

Mensagem para o Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes


3 de junho de 2005

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus


1. A herança de João Paulo II e a exortação de Bento XVI


Os eventos eclesias que vivemos durante o mês de abril deste Ano Eucarístico são uma graça irrepetível na nossa vida cristã e sacerdotal. O papa João Paulo II nos deixou, na sua carta da última Quinta-feira Santa (24 de março de 2005), uma luminosa herança sacerdotal que é como uma síntse dos seus documentos precedentes sobre o sacerdócio. No mesmo caminho traçado pelo seu saudoso predecessor, o papa Bento XVI nos chama a viver o Ano Eucarístico redescobrindo a amizade de Cristo e fazendo desta a chave da nossa existência sacerdotal (Cfr. Discurso aos Párocos de Roma, 13 de maio de 2005).


Na exortação de João Paulo II e de Bento XVI ressoa o convite que vem do coração do próprio Cristo: “permanecei no meu amor... sede meus amigos” (Jo 15,9). É o convite a viver nele, numa dimensão relacional com aquele que é o Verbo da vida, em sintonia com os seus sentimentos, coração a coração, como dizia São Paulo: “tende os mesmos sentimentos de Cristo” (Fl 2,5).


A nossa “existência” sacerdotal é chamada a ser: existência grata, doada, salva para salvar, que faz memória, consagrada, tendente para Cristo, eucarística, na escola de Maria (cfr. João Paulo II, carta do Quinta-feira Santa 2005). A esta nossa vida profundamente relacionada com Cristo, chegamos por meio de uma experiência de fé vivida: “estar diante de Jesus Eucaristia, aproveitar, num certo sentido, das nossas “solidões” para preenchê-las desta Presença, significa dar à nossa consagração todo o calor da intimidade com Cristo, do qual recebe alegria e sentido nossa vida” (Carta do Quinta-feira Santa 2005, n. 6).


O segredo de uma autêntica vida sacerdotal é o amor apaixonado por Cristo que conduz ao anúncio apaixonado de Cristo: “o seu segredo está na ‘paixão’ que ele vive por Cristo. São Paulo dizia: ‘ para mim o viver é Cristo’ (Fl 1,21)” (Carta do Quinta-feira Santa 2005, n. 7).


O sacerdote redescobre e vive profundamente a sua identidade quando se decide a não antepor nada ao amor de Cristo e a fazer dele o centro da própria vida. Somos chamados a “retornar sempre de novo à raiz do nosso sacerdócio. Esta raiz, como bem sabemos é uma só: Jesus Cristo Senhor” (Bento XVI, Discurso aos Párocos de Roma, de 13 de maio de 2005).


Esta experiência de relação com Cristo consiste em entrar na sua amizade, até ao ponto de não poder prescindir dele, em não sentir-se mais sós, nem duvidar do seu amor. “O Senhor nos chama amigos, nos faz seus amigos, confia em nós, nos confia o seu corpo na eucaristia, nos confia a sua Igreja.E então devemos ser realmente seus amigos, ter com Ele um só sentir, querer aquilo que Ele quer e não querer aquilo que Ele não quer. Jesus mesmo nos diz: ‘vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando’ (Jo 15,14)” (Bento XVI, ibidem).


2. Eucaristia e Sacerdócio


João Paulo II na Encíclica Ecclesia de Eucharistia e na Exortação Apostólica Mane nobiscum Domine, nos traçou linhas de “espiritualidade eucarística” para todas as vocações. Ao reler estes textos nos sentimos profundamente tocados, especialmente se fizemos a experiência diante do Tabernáculo. Cristo continua a falar hoje, de coração a coração.


As palavras da consagração eucarística nos modelam e nos transformam, são uma “fórmula de vida”; por isso somos “envolvidos neste movimento espiritual” de transformação em Cristo (João Paulo II, Carta do Quinta-feira Santa, nn. 1 e 3).


A nossa espiritualidade cristã e sacerdotal é relacional, de amizade, é oblativa em união com a caridade do Bom Pastor, é transformante porque faz de nós um sinal claro do próprio Jesus, é mariana porque ligada à escola de Maria, é de comunhão eclesial, é ministerial, ou seja, “de serviço”, é missionária... É sempre invadida pelo agradecimento “eucarístico” de quem se sente amado pelo Senhor e, portanto, o quer amar de todo o coração e fazer com que todos o amem. Neste sentido, toda a nossa vida é centrada na Eucaristia, qual mistério pascal, que se anuncia, celebra, vive e se comunica aos outros. Por isso “se a Eucaristia é centro e cume da vida da Igreja, ao mesmo tempo o é do ministério sacerdotal” (Ecclesia de Eucharistia, n. 31).


Consequentemente, esta vida relacional, para nós como para todos os fiéis na Igreja, se insere no chamado divino a ser “almas enamoradas dele, capazes permanecer longamente sua escutar a voz e quase a sentir as palpitações do seu coração” (Mane nobiscum Domine, n. 18).


Quando entramos nos sentimentos de Cristo, no seu próprio coração, especialmente na celebração eucarística, sentimos o chamado a continuar esta busca íntima durante o dia, sem poder deixar de “demorar-se longamente no diálogo com Jesus Eucaristia” (Mane nobiscum Domine, n. 30). Se não experimentamos a intimidade com Cristo, a “identidade” e a “existência” sacerdotal se diluem e então não encontramos mais sentido para a nossa vida: “Jesus no tabernáculo vos espera junto dele, para derramar nos vossos corações aquela íntima experiência da sua amizade, única a dar sentido e plenitude à vossa vida” (Ibidem).


O papa Bento XVI, dirigindo-se aos sacerdotes no último dia 13 de maio, nos convida com insistência a considerar esta intimidade com Cristo como “prioridade pastoral”: “Por isso o tempo dedicado a estar na presença de Deus é uma verdadeira prioridade pastoral, em última análise, a mais importante” (Bento XVI, Discurso de 13 de maio de 2005).


A nossa relação com a Eucaristia fundamenta a nossa relação com a Igreja como corpo eclesial de Cristo. Daqui nasce a força da nossa caridade pastoral que constitui a nossa principal atitude e o nosso principal serviço, que é “o ofício de amar”: o sacerdócio ministerial tem uma relação constitutiva com o Corpo de Cristo, na sua dupla e inseparável dimensão de Eucaristia e de Igreja, de corpo eucarístico e do corpo eclesial. Por isso o nosso ministério é “amoris Officium” (Santo Agostinho em Johannes Evangelium Tractatus, 123, 5), é ofício do Bom Pastor, que oferece a vida pelas ovelhas (cfr. Jo 10, 14-15)” (Bento XVI, ibidem).


3. Eucaristia e Sacerdócio na “comunhão eclesial”


O amor à Igreja, como mistério de comunhão para a missão, aprende-se do amor do próprio Cristo, que “amou a Igreja e se ofereceu em sacrifíco por ela” (Ef 5, 15). Ao citar João Paulo II que afirmava “a santa Missa é de modo absoluto o centro da minha vida e de cada dia” (Discurso de 27 outubro de 1995, no trigésimo aniversário do Decreto Presbyterorum Ordinis), o Papa Bento XVI comenta: “Da mesma forma, a obediência a Cristo, que corrige a desobediência de Adão, se concretiza na obediência eclesial, que para o sacerdote é, na prática cotidiana, antes de tudo obediência a seu bispo” (Bento XVI, Discurso de 13 de maio de 2005).


Portanto, o Ano Eucarístico (2004-2005) é um forte convite a entrar nos sentimentos de Cristo, para amar a Igreja como Ele a ama e viver com Ele a comunhão da Igreja. O ministério petrino entrou no nosso coração, como nunca antes, no passado mês de abril, quando dois Pontífices nos convidaram a viver centrados em Cristo Eucaristia para experimentar, comendo do “mesmo Pão”, que somos um “só corpo” (1Cor 10, 17).


A comunhão eclesial se concretiza para nós nesta “escuta”, quer dizer “obediência” vivida (“obaudire”) em relação ao ministério dos Apóstolos, do qual também nós participamos. A comunidade primitiva era um “só coração e uma só alma” (At 4,32), porque, ao celebrar a “fração do pão” (a Eucaristia), sabia “escutar” com fidelidade e em atitude de oração a pregação apostólica: “eram assíduos em escutar o ensinamento dos Apóstolos e na união fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42).


A nossa “comunhão eclesial” nasce do amor a Cristo e à sua Igreja. E tal amor pode ser aprendido só na intimidade com o próprio Cristo, presente na Eucaristia e escondido na palavra pregada pelos Apóstolos. É, pois, “comunhão” e escuta-obediência amada e vivida afetivamente e efetivamente.


Neste ano meditando repetidamente sobre a pergunta de Jesus a Pedro (“tu me amas?”) antes de comunicar-lhe o “primado” para apascentar, também nós nos sentimos interpelados mais que nunca, quais pastores do mesmo rebanho. É como se a resposta de Pedro (“tu sabes que eu te amo”) fosse também a nossa: e assim acontece quando vivemos em comunhão com aquele que “preside a caridade universal” , isto é, com Pedro e os seus Sucessores.


A nossa “obediência”, vivida com amor, é parte essencial da nossa espiritualidade sacerdotal, uma vez que como pastores, estamos inseridos na mesma “comunhão” eclesial, serviço no qual, se encontra o ministério petrino. Quando vivemos esta comunhão eclesial (“um só corpo”), em relação com Cristo Eucaristia (“um só pão”) então a nossa vida sacerdotal continua de vento em popa. A comunhão com o próprio Bispo faz parte desta mesma vida eucarística e sacerdotal, para construir a “fraternidade sacramental” no Presbitério, como pede o Concílio Vaticano II (Presbyterorum Ordinis, n. 8)


A celebração eucarística nos une a Cristo, deixando que ela nos transforme também na sua obediência aos desígnios do Pai. Por isso, a nossa obediência “personaliza o Cristo obediente” (Bento XVI, Discurso de 13 de maio de 2005).


4. Testamento missionário de João Paulo II, mensagem de Bento XVI


O papa João Paulo II nos deixou um testamento missionário na sua última mensagem para a Jornada missionária do corrente ano (outubro de 2005), che concluirá o ano eucarístico. Assinou a mensagem no dia 22 de fevereiro, festa da Cátedra de São Pedro, mas o Documento foi publicado em meados de abril, já depois da sua morte. Esse é o seu verdadeiro testamento missionário que nos convida a imitar Cristo “Pão partido”, “Pão de vida para a vida do mundo” (Jo 6, 51). Os seus apóstolos se fazem também eles “pão partido” tramite através da caridade pastoral e são servidores de uma comunidade que deve tornar-se “pão partido” para toda a humanidade. Na Carta do Quinta-feira Santa ele nos diz: “sobretudo no contexto da nova evangelização, o povo tem o direito de voltar-se para os sacerdotes com a esperança de “ver” neles Cristo (cfr Jo 12,21)” (Carta do Quinta-feira Santa, n. 7).


O papa Bento XVI, na Homilia da Missa de inauguração do seu Pontificado na praça de São Pedro, dirigiu-se a todos, mas recordou de modo especial “a missão do pastor, do pescador de homens”. Depois de ter repetido a exortação de João Paulo II, na inauguração do seu Pontificado (“abri as portas a Cristo”), diz “quem deixa Cristo entrar, não perde nada, nada, absolutamente nada do que torna a vida livre, bela e grande. Não! Só nesta amizade se abrem as portas da vida. Só nesta amizade desprendem realmente as grandes potencialidade da condição humana. Só nesta amizade nós experimentamos o que é belo e o que liberta”. (Bento XVI, Homilia de 24 de abril de 2005).


Na verdade não há nada mais belo que deixar-se surpreender por Cristo. Vivendo fielmente em comunhão com o carisma e o ministério petrino, descobrimos esta realidade da nossa vocação pastoral, qual fonte de alegria pascal de Cristo em nós e nos outros: “não há nada mais belo do que conhecer a ele e comunicar aos outros a amizade com ele. A missão do pastor, do pescador de homens pode freqüentemente parecer cansativa. Mas é belo e grande porque decididamente é um serviço à alegria de Deus que quer fazer o seu ingresso no mundo (Ibidem).


Esta vida eucarística, sacerdotal e missionária, na comunhão da Igreja, aprende-se vivendo no Cenáculo “com Maria a Mãe de Jesus” (At 1,14). Podemos imitar nela a sua sintonia de sentimentos com o Coração Sacerdotal de Cristo, porque ela é nossa Mãe pelo fato de ser a “Mãe do único e Sumo Sacerdote. Justamente da nossa união com Cristo e a Virgem tiram seu alimento, aquela serenidade e aquela confiança que todos necessitamos quer para o trabalho apostólico, quer para a nossa existência pessoal. (Bento XVI, 13 de maio de 2005).


Congregação para o Clero

Fonte: cnbb.org.br

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